Cursos de engenharia se aproximam de comunidades

Cursos de engenharia se aproximam de comunidades

Engenheiros são conhecidos por serem bons solucionadores de problemas, dos mais diversos tipos e finalidades. Para instigar que os problemas sociais também sejam contemplados, alguns cursos de engenharia estão abrindo espaço em seus programas para os estudantes desenvolverem projetos voltados a questões importantes para a comunidade na qual a universidade está inserida. Este é o tema abordado nesta reportagem integrante da série “O futuro do ensino da engenharia”, publicada pelo Porvir em parceria com a Escola Politécnica da USP.

“A universidade pública brasileira em si já tem essa função social de se relacionar e melhorar o seu entorno. No caso dos cursos de engenharia, que no mundo todo estão passando por mudanças e reformulações para formar profissionais mais preparados para os desafios contemporâneos isso ganha mais importância, pois abre a cabeça dos alunos, possibilita que eles convivam com realidades diferentes e com problemas reais da comunidade, e não apenas de empresas”, diz Ana Valéria Carneiro Dias, coordenadora do curso de engenharia de produção da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

A universidade mineira iniciou em 2011 um processo de reformulação dos cursos da área, inspirado no modelo da norte-americana Olin College. Desde o ano passado, os 14 cursos de engenharia da instituição passaram a ter no primeiro período uma disciplina unificada, para promover interação entre os alunos e, principalmente, iniciar um contato com metodologias de empreendedorismo, inovação e pensamento criativo. “Conversamos com os professores, eles queriam que os alunos se envolvessem em desafios sociais, se engajassem com algo do entorno da região da universidade”, conta Leonardo Fernandes, sócio da escola de inovação Empower, responsável por colocar o programa em prática.

Usando metodologias como Design Thinking e ensino baseado em projetos, o primeiro programa foi focado em gerar soluções para os desafios enfrentados pela ONG Kolping, que atua na região realizando a profissionalização de jovens de baixa renda da comunidade. Entre eles, destacavam-se a dificuldade em engajar jovens para o trabalho voluntário, como fazer o planejamento financeiro a longo prazo e como a ONG poderia ajudar no fomento de novos negócios que surgem a partir dos seus cursos.
Um engenheiro que entende o contexto real da onde ele vai trabalhar, tem uma maior perspectiva empreendedora e de empreender em contextos sociais, esse ganho é enorme

“Os 130 alunos envolvidos pensaram em 21 possíveis soluções e as apresentaram para a ONG. Os desafios não eram técnicos de engenharia, mas o objetivo maior do projeto era desenvolver neles a capacidade de resolver problemas, de negociar, de trabalhar em equipe e despertar uma visão crítica”, explica Fernandes. No primeiro semestre desse ano, dando continuidade ao projeto, o foco foi em negócios sociais da região. Assim, 335 calouros se dividiram para pensar soluções para problemas enfrentados por oito negócios, dos mais variados tipos, de uma empresa que faz roteiro de aventura para pessoas com deficiência até outra que produz aquecedores solar de baixo custo.

“Um engenheiro que entende o contexto real da onde ele vai trabalhar, tem uma maior perspectiva empreendedora e de empreender em contextos sociais, esse ganho é enorme”, afirma a coordenadora.

Pensando em soluções

No Instituto Mauá de Tecnologia a aproximação com os problema sociais se intensifica no fim dos cursos de engenharia, mais especificamente durante a realização dos trabalhos de conclusão de curso. Ano passado, um grupo de alunos da engenharia civil escolheu estudar o problema de mobilidade no município paulista de São Caetano do Sul, no ABC paulista, onde a universidade está sediada.

Eles tinham como premissa a linha do metrô que está sendo feita na região e que vai passar em uma avenida que tangencia o município, na fronteira com São Bernardo do Campo. “Isso não aumenta a mobilidade dentro de São Caetano, então eles foram estudar qual seria a melhor maneira de deixar o transporte público mais integrado e surgiram com a solução de implementar corredores de ônibus para fazer a interligação com o metrô”, conta a professora Cassia de Silveira Assis, coordenadora do curso de engenharia civil.

O projeto estava tão bem estruturado que o professor orientador auxiliou o grupo a fazer uma apresentação para a prefeitura do município. Entendendo o potencial do estudo, a própria prefeitura sugeriu que outros projetos fossem apresentados para que pudesse escolher com mais embasamento o melhor para a região. Este ano, outro grupo está estudando uma nova solução para melhorar a mobilidade, que utilizará um veículo leve sobre trilhos.

Há também outros grupos pensando em projetos que podem ser úteis para a sociedade. “A engenharia civil tem como característica fundamental resolver os problemas da sociedade civil, o engenheiro tem que ser o profissional que resolve problemas que existem”, explica Assis. Entre eles, destacam-se uma solução para resolver o problema de enchentes enfrentando no bairro paulista do Bexiga, através de medidas de drenagem urbana, e o de desenvolvimento de uma tecnologia limpa para acabar com um resíduo que uma empresa de São Caetano do Sul produzia. Os estudantes desenvolveram uma argamassa incorporando o material. “O resíduo virou produto”, diz a coordenadora.

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